Retatrutida: a molécula do momento. Já posso usar?

Retatrutida: a molécula do momento. Já posso usar?

Já posso usar a retatrutida? A resposta é não. A retatrutida ainda está em fase de estudos e não foi aprovada por nenhum órgão regulador — nem pela Anvisa, nem pela FDA — para uso. A versão que já circula ilegalmente no Brasil não tem qualquer garantia de que é o mesmo produto estudado, nem de que é segura. O caminho seguro é aguardar a aprovação e procurar um endocrinologista.

Dito isso, a retatrutida é, sem dúvida, a molécula do momento. Muita gente está falando sobre ela, e não é por acaso: as promessas em torno desse medicamento são realmente impressionantes. Normalmente, evito falar sobre medicamentos que ainda não foram aprovados, justamente para não passar a impressão de que já estão disponíveis e são seguros. Só que, neste caso, algo diferente está acontecendo: já existe uma comercialização ilegal da retatrutida, e pessoas estão comprando e utilizando um produto que não sabemos exatamente o que é.

Neste artigo, explico o que é a retatrutida, o que os estudos já mostram, quais são os riscos e por que usá-la agora, sem aprovação e sem acompanhamento, é uma decisão perigosa.

Dra. Renata Campos

Dra. Renata Campos

Especialista em Endocrinologia e Metabologia

O que é a retatrutida?

A retatrutida é uma nova molécula em desenvolvimento pelo laboratório Lilly — o mesmo responsável pela tirzepatida (o Mounjaro) — para o tratamento da obesidade. Ela é o que chamamos de agonista triplo: atua ao mesmo tempo em três receptores de hormônios diferentes, o GLP-1, o GIP e o glucagon. É essa ação tripla que, possivelmente, aumenta a potência do medicamento na redução de peso.

Enquanto a tirzepatida atua em dois receptores — o GLP-1 e o GIP —, a retatrutida vai além e atua também no glucagon, agindo em três locais ao mesmo tempo. A tabela abaixo ajuda a visualizar essa diferença entre as gerações de medicamentos:

Retatrutida: agonista triplo que atua nos receptores GLP-1, GIP e glucagon
Medicação Receptores em que atua Nº de alvos
Semaglutida (Ozempic / Wegovy) GLP-1 1
Tirzepatida (Mounjaro) GLP-1 e GIP 2
Retatrutida (ainda em estudo) GLP-1, GIP e glucagon 3

É importante entender que desenvolver esse tipo de molécula não é simples. O investimento é bilionário e são décadas de estudos até se chegar a um tratamento como esse. Não é algo que se reproduza facilmente.

A retatrutida é melhor que o Mounjaro (tirzepatida) para emagrecer?

Nos estudos, a retatrutida mostrou uma redução de peso muito expressiva (em torno de 25% em média nas doses maiores), possivelmente porque atua em três receptores em vez de dois. Ainda assim, não existem estudos comparando as duas medicações diretamente, e a tirzepatida já é aprovada e testada. Só um endocrinologista pode indicar o tratamento mais adequado para cada caso.

O que os estudos já mostram sobre a retatrutida?

Os estudos de fase 3 da retatrutida para obesidade mostraram uma redução média de cerca de 25% do peso corporal (aproximadamente 28 kg) ao longo de 80 semanas, com a dose maior — um resultado comparável, em média, ao de algumas cirurgias bariátricas. Os participantes tinham, em média, mais de 110 kg, ou seja, obesidade significativa.

Redução de peso com retatrutida nos estudos de obesidade

Para interpretar esses números corretamente, precisamos entender o perfil dos pacientes estudados. Os resultados observados foram:

  • Redução de peso de cerca de 25% em média com a dose maior da medicação, o que representou aproximadamente 28 kg a menos, ao longo de 80 semanas.
  • Ao prolongar o estudo em pessoas com IMC acima de 35, a redução chegou próxima de 30% do peso corporal.
  • É um resultado espetacular, comparável, em média, ao de algumas cirurgias bariátricas.

Vale lembrar que esses resultados foram observados em pessoas com obesidade importante. Isso não significa que, em uma pessoa mais magra, o resultado ou os efeitos colaterais sejam os mesmos — esse perfil simplesmente não foi estudado dessa forma.

A retatrutida tem efeitos colaterais?

Sim. Como todo medicamento potente, a retatrutida também apresentou efeitos colaterais nos estudos. Os principais foram os sintomas gastrointestinais — náuseas, constipação e diarreia. Parte dos participantes relatou aumento de sensibilidade na pele (disestesia) nas doses mais altas, e pouco mais de 10% suspenderam o tratamento por não tolerarem os efeitos. Entre os principais:

  • Sintomas gastrointestinais Náuseas foram bastante comuns, além de constipação e diarreia.
  • Alteração de sensibilidade na pele Algumas pessoas relataram uma sensibilidade aumentada na pele (disestesia), efeito que se tornou um pouco mais frequente com as doses mais altas, ultrapassando 10% dos pacientes.
  • Intolerância ao tratamento Pouco mais de 10% das pessoas suspenderam a medicação por não tolerarem os efeitos. Ou seja, não funciona para todo mundo e não é um milagre — precisa ser muito bem indicada.

Ainda faltam muitas respostas. Há uma série de questões que a ciência precisa esclarecer antes que esse tipo de medicação possa ser usado com segurança no dia a dia.

⚠️ Por que a retatrutida vendida ilegalmente é tão perigosa?

A retatrutida vendida ilegalmente é perigosa porque não há qualquer garantia de que o conteúdo do frasco corresponde ao rótulo, nem de qual é o grau de pureza do produto. Como endocrinologista (CRM 135847-SP), oriento que ninguém use esse tipo de formulação: trata-se de uma molécula peptídica extremamente complexa, difícil de reproduzir, e um produto clandestino pode se comportar de forma imprevisível dentro do corpo.

Alerta sobre os riscos da retatrutida de origem ilegal

Reproduzir essa molécula não é nada simples — não basta ter os mesmos aminoácidos; ela precisa se comportar exatamente da mesma forma dentro do corpo. Apesar disso, já existe um mercado ilegal em pleno funcionamento. O produto costuma vir do Paraguai — onde, aliás, também não é regulamentado — e a formulação possivelmente é importada da China ou de outros locais e envasada em fábricas sem controle. É um mercado muito rentável, movido pela promessa de resultados extraordinários. Os riscos são muitos:

  • Não sabemos se é realmente retatrutida. Não há garantia de que o que está dentro do frasco corresponde ao que está escrito no rótulo.
  • Grau de pureza desconhecido. O produto pode estar contaminado com outras substâncias, e é muito difícil garantir pureza total nesse tipo de fabricação clandestina.
  • Comportamento imprevisível no corpo. Moléculas peptídicas complexas podem provocar reações imunológicas e efeitos inesperados quando não são idênticas ao original.
  • Sem indicação médica. Na maioria das vezes, o produto é vendido por alguém que não é médico, sem qualquer avaliação individual.

Em resumo: não sabemos nem a eficácia exata dessa molécula que está sendo comercializada ilegalmente e, o que é ainda mais grave, não sabemos nada sobre a sua segurança.

Afinal, já posso usar a retatrutida?

Não. A retatrutida ainda não está oficialmente disponível de forma legal e segura. Sou a Dra. Renata Gonçalves Campos, endocrinologista em São Paulo (CRM 135847-SP), e oriento que ninguém use esse medicamento por conta própria enquanto ele não for aprovado. Quando a comercialização legal começar, provavelmente será primeiro nos Estados Unidos, e ainda vai levar um tempo até chegar ao Brasil de forma regulamentada.

Enquanto isso, o melhor caminho é não usar esse tipo de medicação por conta própria. Se você busca tratamento para obesidade ou emagrecimento, procure um médico de confiançao endocrinologista é um dos profissionais mais capacitados para orientar você sobre esses tratamentos, com segurança e de acordo com o seu caso.

Conclusão

A retatrutida é uma molécula muito promissora e os primeiros estudos são realmente animadores. Mas "promissora" não é o mesmo que "pronta para uso". Ela ainda está em investigação, e a versão vendida ilegalmente não oferece qualquer garantia de que é o mesmo produto estudado, muito menos de que é seguro.

Não use esse tipo de medicação sem aprovação e sem acompanhamento médico. Espere que a ciência conclua o que precisa concluir e conte com um especialista para tomar a melhor decisão pela sua saúde. Espero ter ajudado e até a próxima!

Este artigo tem caráter informativo e não substitui uma consulta médica. Agende uma consulta para uma avaliação individualizada.

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